A vaga anuncia R$ 3.000, você aceita, e no fim do mês entram pouco mais de R$ 2.600. A diferença não é erro: é a distância entre o salário bruto, que consta no contrato, e o salário líquido, que é o bruto menos os descontos obrigatórios e os opcionais.
Saber fazer essa conta evita surpresa e ajuda a comparar propostas — um salário maior com plano de saúde descontado pode render menos que um salário menor com plano pago pela empresa. Abaixo, cada desconto explicado com exemplos, do jeito que aparece no holerite.
Em resumo
- INSS: desconto obrigatório e progressivo, com alíquotas de 7,5% a 14% aplicadas por faixa sobre o salário, até um teto. É a sua contribuição para aposentadoria e benefícios.
- Imposto de renda (IRRF): calculado sobre o salário já descontado o INSS. A partir de 2026, quem ganha até R$ 5.000 por mês ficou isento, com redução parcial para salários um pouco acima disso.
- Vale-transporte: a empresa pode descontar até 6% do salário-base se você optar por receber o benefício.
- FGTS não é desconto: são 8% que a empresa deposita numa conta em seu nome, além do salário.
O que é salário bruto e o que é líquido
Salário bruto é o valor combinado no contrato e registrado na carteira, antes de qualquer desconto. É sobre ele que se calculam férias, 13º, FGTS e horas extras. Salário líquido é o que sobra depois dos descontos legais (INSS e imposto de renda) e dos descontos autorizados por você (vale-transporte, plano de saúde, empréstimo consignado, contribuição sindical, entre outros). É o valor que efetivamente entra na conta.
INSS: o primeiro desconto
A contribuição ao INSS é obrigatória para todo empregado e é progressiva: o salário é dividido em faixas, e cada faixa tem uma alíquota (7,5%, 9%, 12% e 14%). Só a parte do salário que cai em cada faixa paga aquela alíquota — parecido com o imposto de renda. A primeira faixa vai até o valor do salário mínimo, e as demais são reajustadas todo ano. Acima do teto do INSS, não há desconto adicional.
Um exemplo aproximado, com faixas arredondadas: em um salário bruto de R$ 3.000, a parte até o mínimo paga 7,5%, a parte entre o mínimo e cerca de R$ 2.800 paga 9%, e o restante até R$ 3.000 paga 12%. O desconto total fica em torno de R$ 250, ou pouco mais de 8% do salário — menos do que os 12% da faixa mais alta, justamente por causa da progressividade. Para o valor exato, use a tabela vigente publicada no site do INSS ou uma calculadora atualizada.
Imposto de renda retido na fonte (IRRF)
O imposto de renda é calculado sobre a base: salário bruto menos o INSS e menos R$ 189,59 por dependente (ou, alternativamente, um desconto simplificado fixo, quando for mais vantajoso). Sobre essa base aplica-se a tabela progressiva, com faixas isentas e alíquotas de 7,5% a 27,5%, descontando a parcela a deduzir de cada faixa.
A partir de 2026, a isenção passou a valer para quem ganha até R$ 5.000 por mês, e há uma redução decrescente do imposto para rendimentos entre R$ 5.000 e R$ 7.350. Na prática, a maior parte dos trabalhadores brasileiros deixou de ter desconto de IR no holerite. Quem ganha acima disso continua pagando conforme a tabela. Confira a tabela e as regras vigentes no site da Receita Federal, porque elas podem ser alteradas.
Vale-transporte, plano de saúde e outros descontos
- Vale-transporte: se você opta por receber, a empresa pode descontar até 6% do salário-base. Se o custo real das passagens for menor que 6%, o desconto é limitado ao custo. Se você mora perto e vai a pé, pode recusar o benefício e não ter o desconto.
- Vale-alimentação ou refeição: quando previsto na convenção ou na política da empresa, pode ter uma pequena coparticipação descontada (muitas vezes simbólica, como R$ 1).
- Plano de saúde e odontológico: depende da política da empresa — alguns são integralmente pagos, outros têm desconto parcial ou coparticipação por uso.
- Contribuição sindical e mensalidade: desde 2017, só com autorização expressa do trabalhador.
- Adiantamento salarial: se a empresa paga parte do salário no meio do mês, esse valor é descontado no fechamento — não é perda, apenas antecipação.
- Faltas não justificadas e atrasos: descontados proporcionalmente, incluindo o descanso semanal remunerado da semana da falta.
O que não é desconto
FGTS: a empresa deposita 8% do salário bruto por mês numa conta da Caixa em seu nome. Não sai do seu salário; é um custo do empregador, e você pode sacar em situações como demissão sem justa causa, compra de imóvel e aposentadoria.
13º salário e férias: são pagos além do salário mensal. O 13º sai em duas parcelas (a primeira até novembro, a segunda até 20 de dezembro), e as férias vêm com um terço a mais.
Como comparar duas propostas
Some tudo o que entra e tudo o que sai. Uma proposta de R$ 3.200 com plano de saúde pago pela empresa e vale-alimentação de R$ 700 pode valer mais do que outra de R$ 3.600 sem benefícios, na qual você pagaria plano e refeição do próprio bolso. Inclua na conta o custo de transporte e de tempo de deslocamento, a possibilidade de trabalho remoto e a jornada real. E confirme sempre se o valor anunciado é bruto ou líquido — a maioria das vagas anuncia o bruto.
Como calcular o seu salário líquido
Parta do salário bruto
Use o valor do contrato ou da proposta, sem adicionais variáveis (horas extras e comissões mudam mês a mês e são tributados junto).
Calcule o INSS por faixa
Aplique 7,5% sobre a parte até o salário mínimo, 9% sobre a parte na segunda faixa, 12% na terceira e 14% na quarta, até o teto. Some as parcelas. Tabelas atualizadas estão no site do INSS.
Ache a base do imposto de renda
Subtraia o INSS do bruto e o valor por dependente, se houver. Se a base ficar dentro da faixa de isenção vigente, o IR é zero.
Aplique a tabela do IR, se couber
Para bases acima da isenção, aplique a alíquota da faixa e subtraia a parcela a deduzir. Confira as regras de redução para salários próximos ao limite.
Subtraia os descontos opcionais
Vale-transporte (até 6%), coparticipação de plano, empréstimo consignado e outros que você autorizou. O que sobra é o líquido.
Por onde começar
Pegue o último holerite e identifique cada linha: salário-base, INSS, IRRF, vale-transporte, outros. Se alguma não fizer sentido, o RH é obrigado a explicar. Se ainda não tem holerite, use uma calculadora de salário líquido atualizada para simular a proposta antes de aceitar.
Atenção
As faixas do INSS e do imposto de renda mudam todo ano, e as regras de isenção foram alteradas recentemente. Os exemplos deste artigo usam valores arredondados para explicar o mecanismo; para a sua conta, use as tabelas oficiais vigentes no site do INSS e da Receita Federal.
Perguntas frequentes
Por que o desconto do INSS não é simplesmente 14% do salário?
Porque a tabela é progressiva por faixas: cada pedaço do salário paga a alíquota da sua faixa. Só quem ganha no teto chega perto da alíquota efetiva máxima; para a maioria, o desconto fica entre 7,5% e 11% do bruto.
Horas extras e comissões têm desconto?
Sim. Elas entram no salário bruto do mês e sofrem os mesmos descontos de INSS e imposto de renda, o que pode fazer o desconto aumentar num mês em que você ganhou mais.
O que é o desconto simplificado do IR?
É uma dedução fixa mensal que substitui as deduções por dependente e outras, quando for mais vantajosa para o trabalhador. A empresa aplica automaticamente a opção que resulta em menor imposto.
Posso recusar o vale-transporte para não ter o desconto?
Sim. O benefício é opcional para o empregado. Se você não precisa dele, basta declarar por escrito que não quer, e a empresa não desconta os 6%.
Meu salário líquido veio menor que o combinado. O que fazer?
Peça o holerite detalhado e confira cada desconto. Descontos sem autorização (fora INSS e IR) são irregulares. Se o RH não resolver, o sindicato da categoria ou a Justiça do Trabalho podem ser acionados.
Os valores de salário citados neste blog são faixas aproximadas, reunidas a partir de sites de vagas, pesquisas salariais e pisos de categoria. Eles variam conforme região, porte da empresa, experiência e negociação, e podem mudar com o tempo.
Redação Carreira em Foco
Quem escreve aqui pesquisa cada profissão do jeito que um candidato faria: lê vagas reais, confere pisos e convenções, compara os caminhos de formação e só depois transforma tudo em texto direto, sem jargão de RH e sem propaganda de curso.


