O currículo tem um trabalho só: conseguir a entrevista. Ele não precisa contar sua vida nem impressionar pelo design; precisa deixar um recrutador — humano ou software — entender em poucos segundos quem você é, o que faz e por que serve para aquela vaga.
A maior parte dos currículos falha por excesso: informação demais, seções desnecessárias, frases genéricas, formatação que atrapalha. Este guia mostra um modelo simples, seção por seção, que funciona para a maioria das vagas, e como adaptar para cada candidatura sem reescrever tudo.
Em resumo
- Uma página, PDF, fonte legível, sem colunas complicadas nem gráficos: passa na leitura humana e nos sistemas de triagem (ATS).
- Ordem das seções: dados de contato, objetivo ou resumo, experiência (da mais recente para a mais antiga), formação, cursos, habilidades e idiomas.
- Na experiência, escreva resultados e responsabilidades concretas, com números quando existirem, e use as palavras da vaga.
- Fora: CPF, RG, estado civil, foto (salvo pedido), “referências a pedido”, frases prontas como “proativo e dinâmico”.
Dados de contato
Nome completo, cidade e estado (não precisa do endereço completo), telefone com DDD, e-mail profissional (nome.sobrenome, não apelido) e o link do LinkedIn, se tiver perfil arrumado. Para áreas criativas e de tecnologia, o link do portfólio ou do GitHub. Nada de CPF, RG, data de nascimento, estado civil ou número de filhos — nenhum desses dados ajuda na triagem e alguns só servem para discriminação.
Objetivo ou resumo
Duas linhas, no máximo três. Para quem está começando, o objetivo diz o cargo ou a área desejada: “Auxiliar administrativo” ou “Estágio em logística”. Para quem já tem experiência, o resumo funciona melhor: quem você é profissionalmente, quanto tempo de área, uma ou duas especialidades e o que busca. Exemplo: “Assistente financeira com 4 anos de experiência em contas a pagar e conciliação bancária, com domínio de Excel avançado e ERP. Busco atuar como analista financeiro júnior.”
O objetivo deve mudar a cada candidatura para bater com a vaga. Um objetivo genérico (“crescer profissionalmente numa empresa sólida”) não diz nada e é lido como preguiça.
Experiência profissional
Da mais recente para a mais antiga. Para cada uma: nome da empresa, cargo, período (mês e ano de início e fim) e de três a cinco linhas sobre o que você fazia e o que entregou. A diferença entre um currículo mediano e um bom está nessas linhas: em vez de listar tarefas (“responsável pelo atendimento”), descreva responsabilidades e resultados (“atendimento a cerca de 60 clientes por dia no balcão e por WhatsApp, com meta de satisfação atingida em 11 dos 12 meses”).
Use as mesmas palavras que aparecem na vaga quando forem verdadeiras: se o anúncio pede “controle de estoque” e você fazia isso, escreva “controle de estoque”, não “gestão de materiais”. Sistemas de triagem buscam termos exatos. Estágios, trabalhos temporários e experiências informais relevantes entram aqui também.
Formação
Curso, instituição, cidade e ano de conclusão (ou previsão, para quem está cursando). Comece pelo nível mais alto. Se você tem ensino superior, não precisa listar o ensino médio. Se tem só o médio, coloque-o com a escola e o ano. Cursos técnicos entram aqui, com o nome completo do curso.
Cursos e certificações
Só os relevantes para a vaga, com nome, instituição e carga horária. Um curso de Excel de 40 horas na Fundação Bradesco importa para uma vaga administrativa; um curso de fotografia, não. Limite a cinco ou seis; muitos cursos curtos passam a impressão de dispersão. Certificações profissionais (NR-10, operador de empilhadeira, certificações de tecnologia) vêm primeiro.
Habilidades e idiomas
Habilidades concretas e verificáveis: ferramentas (Excel avançado, Power BI, AutoCAD, sistema X), técnicas (soldagem MIG, atendimento em call center, fechamento contábil) e idiomas com nível honesto (básico, intermediário, avançado, fluente). Evite a lista de adjetivos — “comunicativo, proativo, dedicado” não são habilidades, são autoavaliações que ninguém confere. Se quiser mostrar competências comportamentais, mostre pelo resultado na experiência.
Formatação que passa na triagem
- Uma página para até 10 anos de carreira; duas no máximo para carreiras longas.
- Fonte simples (Arial, Calibri, Helvetica), tamanho 10 a 12, margens de pelo menos 2 cm.
- Títulos de seção claros, texto alinhado à esquerda, sem tabelas, colunas duplas, ícones ou caixas de texto — sistemas de triagem embaralham isso.
- Salve em PDF com nome no formato “Nome-Sobrenome-Curriculo.pdf”. Só envie em Word se a vaga pedir.
- Revise ortografia com calma e peça para alguém ler. Erro de português elimina em vagas administrativas.
- Foto: só se a vaga pedir. Em muitos processos ela é ignorada ou removida por política de diversidade.
Montando o currículo em uma hora
Escolha a vaga-alvo
Abra um anúncio real da vaga que você quer e grife as exigências e as palavras-chave. O currículo será escrito para ela.
Escreva o objetivo ou resumo
Duas linhas alinhadas com a vaga grifada.
Preencha a experiência com resultados
Para cada emprego, três a cinco linhas: responsabilidades concretas, números e as palavras da vaga que forem verdadeiras.
Complete formação, cursos e habilidades
Só o que é relevante. Corte cursos e habilidades que não conversam com a vaga.
Formate e revise
Fonte simples, uma página, PDF. Leia em voz alta, corrija, peça outra leitura.
Salve um modelo-base
Guarde a versão completa e, para cada nova vaga, ajuste objetivo, ordem e palavras-chave em dez minutos.
Habilidades que fazem diferença
- Escrever de forma concreta: verbos de ação, números, resultados.
- Ler uma vaga e extrair o que ela realmente pede.
- Editar: cortar o que não ajuda é mais difícil que acrescentar.
- Consistência: datas, cargos e formações iguais no currículo e no LinkedIn.
- Revisão de português — ou humildade para pedir que alguém revise.
Por onde começar
Abra o seu currículo atual e a vaga que mais lhe interessa lado a lado. Grife na vaga as exigências e verifique se cada uma aparece, com as mesmas palavras, no seu currículo. Ajuste o que faltar e corte o que sobrar. Esse exercício de vinte minutos resolve a maior parte dos problemas de triagem.
Atenção
Não invente cargos, datas, formações ou cursos. Recrutadores checam referências e histórico na carteira digital, e uma mentira descoberta encerra o processo — às vezes depois da contratação, com justa causa. Se há um período sem trabalho, deixe o intervalo e explique na entrevista, se perguntarem.
Perguntas frequentes
Currículo precisa ter foto?
Não, a menos que a vaga peça. Muitas empresas removem a foto na triagem para evitar viés. Se colocar, use uma foto sóbria, com fundo neutro e roupa de trabalho.
Devo colocar pretensão salarial?
Só se a vaga pedir. Nesse caso, informe uma faixa realista com base no mercado. Sem pedido, deixe para a entrevista.
Como explicar um período sem trabalhar?
No currículo, apenas deixe o intervalo nas datas. Se o período foi de estudo, curso ou cuidado familiar, você pode mencionar em uma linha. Na entrevista, responda com naturalidade: o que fez no período e por que está pronto para voltar.
Um currículo serve para todas as vagas?
Não. Mantenha um modelo-base e adapte objetivo, ordem das informações e palavras-chave para cada vaga. Leva dez minutos e multiplica o retorno.
Devo usar modelos prontos coloridos da internet?
Evite. Modelos com colunas, ícones e gráficos de habilidade ficam bonitos na tela, mas são mal lidos por sistemas de triagem e distraem o recrutador. Simples, limpo e organizado funciona melhor.
Redação Carreira em Foco
Quem escreve aqui pesquisa cada profissão do jeito que um candidato faria: lê vagas reais, confere pisos e convenções, compara os caminhos de formação e só depois transforma tudo em texto direto, sem jargão de RH e sem propaganda de curso.


